Casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda é tímido

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Entre os meses de maio de 2011 e 2012, onze uniões estáveis entre homossexuais foram protocoladas; quatro dos oito pedidos de casamento foram autorizados pela Justiça na RPT
Portal liberal.com.br
André Luiz Prudente e Diego Sulivan Carvalho vão se casar dia 16 de fevereiro em Americana
Quatro meses depois do Conselho Superior de Magistratura determinar o registro de casamento entre pessoas do mesmo sexo em todos os cartórios do Estado, a formalização da união entre gays ainda engatinha na RPT (Região do Polo Têxtil). Em Americana houve apenas um casamento, no mês de novembro. Ocorreram ainda duas uniões em Santa Bárbara d'Oeste e três em Sumaré. Além da decisão do Conselho, o Diário Eletrônico da Justiça publicou em dezembro alterações nas Normas de Serviço da Corregedoria-Geral que aplicam ao casamento ou à conversão de união estável em casamento de homossexuais as mesmas regras exigidas aos heterossexuais, outra medida facilitadora para a formalização dos casais que se encontram nessa condição.

A decisão das estâncias judiciais, porém, por enquanto não encontrara eco em Americana, por exemplo, segundo o industriário Diego Sulivan Carvalho de Toledo, 27, que vai se casar com o bombeiro André Luiz Prudente Ramos da Silva, 29, no próximo dia 16 de fevereiro, apenas a segunda união formalizada entre pessoas do mesmo sexo na cidade. O casal vive junto há cinco anos e resolveu agora, apoiado pelas recentes decisões, colocar no papel a relação que já existia de maneira informal perante a legislação. Apesar disso, manterão os nomes de solteiro, para evitar a burocracia da mudança de documentos.

"Aqui em Americana os gays estão muito escondidos. As pessoas têm medo se expor e acabar recriminadas. São poucos os que têm coragem de dar a cara tapa e enfrentar, a maioria se esconde. A cidade ainda tem um pensamento muito retrogrado quanto ao assunto, a mente está muito fechada", comentou Diego. Na empresa em que trabalha há 11 anos, por exemplo, a orientação sexual do industriário ainda é alvo de brincadeiras e piadas discriminatórias, segundo ele. "Procuro ignorar, não dar importância para isso. Mas enquanto ficarmos nos escondendo, a sociedade não vai saber nos respeitar".

André acredita que o exemplo de seu casamento com Diego pode motivar outros casais homossexuais a formalizarem a união no cartório em Americana. O casamento entre mulheres, inclusive, nem mesmo recebeu pedidos desde as últimas decisões. O bombeiro contou que a primeira tentativa de realizar a cerimônia aconteceu em novembro, mas não obteve sucesso. Após a virada do ano, voltou a apresentar o pedido e dessa vez foi atendido. "Temos amigos que moram juntos há mais de dez anos, mas ainda não sabem com clareza da decisão", comentou.

Tanto André como Diego destacaram o acesso aos direitos proporcionados pelo casamento como principal fator motivador pela formalização. Apesar de já levarem uma vida de casados há cinco anos, sem "papel passado" não conseguem obter direitos que poderão ser requisitados no futuro ou em caso de acidente ou morte. "Se acontecer qualquer coisa com algum de nós, o outro não vai ter nenhum tipo de assistência", comentou o industriário.

Se o temor de enfrentar a sociedade já dificulta a tomada da decisão, ela aumenta com a resistência dentro de casa, como no caso de André. Ele relatou que sempre encontrou o apoio dos pais, mas o mesmo não pode ser dito sobre os demais familiares. "Sempre foi aquela situação do tipo 'eu gosto de você, mas não fique perto de mim'. É impressionante, mas ainda acham que homossexualidade é uma doença".

O Grupo Freedom acompanhou em novembro o segundo casamento gay de Santa Bárbara d'Oeste, entre a comerciante Sema Simão, 42, e a enfermeira Cléia Gonçalves da Silva Simão, 48, que já viviam juntas há nove anos e conquistaram o sonho de oficializar a união no dia 24 daquele mês. Uma semana antes, na mesma cidade, havia ocorrido o primeiro casamento homoafetivo, também entre mulheres.

Sema e Cléia aguardaram 15 dias desde o pedido até a permissão para a cerimônia. A comerciante não queria que a união fosse divulgada, mas foi convencida pela companheira de que dessa forma poderiam ajudar outras pessoas, assim como no caso de André e Diego em Americana. "Acho importante divulgar porque se outras pessoas que também têm essa vontade podem realizar esse sonho. É uma conquista muito importante", disse Cléia.

Na oportunidade elas também destacaram o apoio e a participação da família para a concretização da união. Como forma de dimensionar tal importância, Cléia tem três filhos adultos e uma neta. "Todos aceitaram sem problemas. Inclusive, minha neta de cinco anos, vive conosco desde seu primeiro dia de vida e nós somos uma família", explicou a enfermeira.

Antes das últimas duas decisões, quando a união estável ainda era requisito exigido antes do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com base em uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), os pedidos também eram tímidos nos cartórios de notas da RPT (Região do Polo Têxtil). Entre os meses de maio de 2011 e 2012, onze uniões estáveis entre homossexuais foram protocoladas e quatro dos oito pedidos de casamento foram autorizados pela Justiça.

Na região, Hortolândia foi pioneira a realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo, onde os quatro pedidos foram autorizados pela Justiça - três entre mulheres e um entre homens - até maio do ano passado, um ano após a decisão do STF que exigia a união estável antes da oficialização. Nos demais municípios, todos os pedidos foram negados pelos juízes.

Fonte: Jornal O Liberal

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